Se os duelos esportivos tinham data, hora e até minutos para começar, às 8 horas e 8 minutos do dia 8/8/2008, a política, como de costume, tratou de apressar as coisas. Afinal, quando a disputa é pelo poder, aquela história de paciência oriental parece abandonar o governo chinês que ambiciona o status de dono do mundo dos norte-americanos. Agora, as medalhas deixam de ser glórias de esporte para se transformar em mais um mero demonstrativo de supremacia entre as nações.
Segundo o jornal O Globo, o Ministério de Relações Exteriores chinês, Liu Jianchao, criticou o encontro do presidente Bush com opositores do país na Casa Branca e a declaração sobre os atletas americanos que deveriam se comportar como "embaixadores da liberdade" Além disso, ele afirmou que os Estados Unidos têm aproveitado o momento para interferir de forma imprudente nos assuntos internos chineses. O presidente norte-americano George W. Bush foi criticado pelo governo chinês não apenas por ter recebido cinco exilados dissidentes chineses na Casa Branca, mas também pela aprovação de uma resolução que prevê o fim do apoio de Pequim a regimes cruéis como o de Mianmar e do Sudão, e mais respeito aos direitos humanos no país.
Bush parece estar disposto a continuar testando a paciência oriental ao comparecer a uma igreja de Pequim para discutir o livre direito à expressão religiosa logo após assistir à cerimônia de abertura dos Jogos. Dotado de uma amnésia providencial Bush pretende levantar a bandeira dos direitos humanos mesmo que já a tenha deixado a meio mastro quando de seu interesse. Principalmente quando o assunto é bélico ou econômico, Saddam Hussein que o diga. Embora, o termo “humano” pereça demais para o ex-líder iraquiano. Contudo, demais mesmo é o apelo dos Estados Unidos para que os chineses aproveitem as Olimpíadas para discutir a questão dos direitos humanos.
Bush também compareceu em um encontro com seu consultor de segurança nacional, Steven Hadley, e o ministro das Relações Exteriores chinês. De acordo com a Casa Branca.
“O presidente revisou as atuais relações bilaterais com o ministro chinês, e também falou sobre seu desejo de ver o sucesso das Olimpíadas, apontando que isso apresenta aos chineses uma oportunidade de demonstrar compaixão pelos direitos humanos e pela liberdade.” (fonte: O Globo)
É claro que o “humanismo” de Bush se deve muito mais à pressão dos organismos internacionais do que propriamente a uma revisão drástica de consciência.
Esses encontros com os dissidentes e as colocações sobre direitos humanos e temas religiosos, o governo dos EUA tem se envolvido em assuntos internos da China e transmitido uma idéia bastante equivocada para forças antichinesas hostis, afirmou Liu.
Grupos de direitos humanos pressionaram Bush para que boicotasse a abertura dos Jogos. Ele alegou que isto seria uma "afronta" ao povo chinês, e que tornaria mais difícil as conversas com os líderes sobre preocupações de direitos humanos.
Antes da cerimônia de abertura, a Anistia Internacional emitiu uma rigorosa avaliação dos registros de direitos humanos da China. De acordo com o levantamento, muitos de seus cidadãos tiveram liberdades cerceadas desde que Pequim foi escolhida sede dos Jogos Olímpicos.
Essa rusga diplomática se deu porque o Ministério das Relações Exteriores da China já havia reprovado a atitude dos americanos que participaram do encontro entre o candidato republicano à Presidência, John McCain e o líder espiritual tibetano, Dalai Lama. Nos 45 minutos de conversa com o líder tibetano no exílio, McCain pediu à China que respeite os direitos humanos no Tibete, no que foi logo contra-atacado por Liu Jianchao, que rebateu:
“Pedimos a proeminentes figuras americanas que respeitem os limites das relações internacionais e saibam entender que a verdadeira face do Dalai Lama é aquela que promove atividades separatistas e sabota a unidade do país”.(fonte: O Globo)
De fato, as cifras astronômicas que literalmente estão em jogo não combinam com o chamado espírito olímpico.
Além do mais, esta me parece ser uma história sem santinhos pois, a China adotou uma tática “kamikaze” para superar os americanos, além de recrutamento de atletas bastante agressivo, uma clara preferência por esportes individuais e em evolução que garanta um número maior de medalhas.
Ainda bem que política não se mete nos sonhos enquanto torcedores e que a chama dentro de nós continue acesa.
Rodrigo Bahiense é articulista do Instituto Percepções de Responsabilidade Social, jornalista e mestrando da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. rodrigobahiense@percepcoes.org.br