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Foto - Evandro Teixeira
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Pauê rompendo as barreira pela vida.
  Pauê rompendo as barreira pela vida.


Liberdade nas ondas.
  Liberdade nas ondas.


Ciclismo nas competições de triatlo.
  Ciclismo nas competições de triatlo.


Competindo em corridas.
  Competindo em corridas.


A beleza do pôr do sol em Santos.
  A beleza do pôr do sol em Santos.


A alegria do v da vitória.
  A alegria do v da vitória.


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Pauê: um exemplo de superação


O cara é surfista e triatleta. Está no terceiro ano da faculdade de fisioterapia. Seis dias por semana, acorda, bate aquela larica matinal e encara 4 000 metros de natação. Depois, pedala mais 60 km e faz musculação. Quando as ondas começam a quebrar, abandona a rotina e cai na água para surfar. “Essa é a melhor parte da semana.” O dia-a-dia do santista Paulo Eduardo Chieffi Aagaard, o Pauê, 22 anos, não teria nada de diferente do cotidiano de um atleta de ponta não fosse um pequeno detalhe: ele é amputado das duas pernas.

No dia 8 de junho de 2000, Pauê foi atropelado por uma locomotiva e perdeu as duas pernas. “Foi logo ali em frente. Dá pra ver daqui da varanda”, explica de sua casa em São Vicente, apontando o local do acidente com a maior naturalidade. “O lance do surf ajudou muito na minha reabilitação. Conhecer a essência do esporte, ter contato com a natureza, trabalhar o equilíbrio emocional, sentir o prazer que só o surf proporciona... Tudo isso contribuiu para que eu superasse o trauma.”

De cara com a morte

Pauê sempre foi fissurado por esportes. Pegava onda todos os dias e nadava numa academia atrás de sua casa. Numa noite, esqueceu touca e óculos e resolveu voltar para buscar. Passava das 20h e estava escuro. No caminho entre sua casa e a academia, havia uma ferrovia desativada. Ao atravessar a linha de trem, Pauê não percebeu a proximidade da locomotiva e teve as pernas esmagadas. “A linha está desativada, mas de vez em quando passava algum trem. A locomotiva estava apagada e, assim que pisei na linha, aconteceu o acidente. Não vi, não ouvi, não senti nada.”

Sem tempo para frear, o trem atingiu-o de frente. Pauê só sentiu o impacto. Foi arrastado por 50 metros até a locomotiva parar completamente. Saiu debaixo da máquina engatinhando, sem perceber que havia perdido as pernas. “Depois do choque, pensei: ‘Caralho, fui atropelado, mas estou vivo'. Não sentia dor nenhuma.” Pauê só se deu conta de que havia perdido as pernas quando tentou ficar de pé. “Só percebi que não tinha mais as pernas quando caí para trás. Aí, entrei em pânico.”

Pernas no lixão

A partir dessa hora, ele não consegue lembrar com nitidez o que aconteceu. Pauê foi socorrido imediatamente por amigos, vizinhos e parentes. Um primo encontrou as pernas, que foram colocadas no gelo e transportadas para o hospital. “Nunca cheguei a vê-las, mas me contaram que elas estavam dilaceradas. Não tinha jeito mesmo. Acho que foram enterradas ou jogadas no lixão.”

Descartado um implante, a luta passou a ser pela sobrevivência. Após dez dias na UTI, foi transferido para um quarto comum. A infecção não dava trégua. “Os trilhos estavam sujos e enferrujados”, explica. Preso na cama, tomava um coquetel de 20 antibióticos diferentes e começou a delirar. Passaram-se duas semanas e ele começava a dar sinais de que estava reagindo à infecção. Até que teve um choque anafilático causado pela reação a um dos antibióticos. Foi entubado e acabou na mesa de operações, onde sobreviveu a três paradas cardíacas. Passou mais 72 horas à beira da morte na UTI.

Começar do zero

Foram 58 dias até que a perna cicatrizasse e Pauê finalmente pudesse deixar o hospital. Era hora de tocar a vida e voltar para as ruas. “Ao contrário do que muita gente pensa, não fiquei com trauma de trens. No início, a parte mais difícil era sair na rua e ver que todo o mundo me olhava com cara de pena. Mas isso passou. Meus amigos me levavam pra tudo quanto é canto: praia, cinema, shopping, boates. Sempre na cadeira de rodas.”

E foi em contato com o mundo que ele encontrou motivação interna e apoio externo para seguir em frente. Aos 18 anos, era hora de escolher uma carreira. Pauê pensou em estudar medicina para entender melhor seu processo de recuperação, mas não queria ficar sem tempo para surfar e se tratar e terminou optando por fisioterapia. Nem foi preciso pensar muito onde estudar. A Unimonte (Universidade Monte Serrat, em Santos) abriu as portas da instituição: bolsa de estudo e livre acesso ao centro de treinamento e recreação. Era tudo do que Pauê precisava.

Apoio profissional

No início, o objetivo esportivo era apenas voltar à ativa, surfar. “Eu quase não tinha musculatura. Tentava nadar, mas não saía do lugar. Tive de reaprender tudo.” Nos treinos na piscina da universidade, Pauê convivia com alguns dos melhores triatletas em atividade no país: Oscar Galindez, Paulo Miachiro, Fernanda Garcia. “Tive um grande apoio dessa galera, rolou uma troca de energia e de experiência muito bacanas.”

Treinar ao lado desses atletas apressou sua recuperação. Encorajado pelo amigo Mosquito, atual técnico, Pauê procurou ajuda para recomeçar nas ondas. “Tive aulas com o Pirata [surfista que não tem uma das pernas] e aprendi tudo de novo, da areia mesmo, como um iniciante sem prótese.

Surf e triatlo

Pauê é o único surfista amputado bilateral de quem se tem notícia no mundo. Também é o único triatleta com esse tipo de amputação a disputar provas para portadores de deficiência no Brasil. Em janeiro de 2001, seis meses após o acidente, fez a primeira travessia aquática, de 1 500 metros. A segunda foi um pouco mais longa: 8 km. Em 2002, participou da primeira prova de triatlo e nunca mais parou. “É muito difícil encontrar um atleta que tenha as duas pernas amputadas. Assim como é complicado formar uma categoria com portadores de outras deficiências raras. Então, os organizadores reuniram todos nessa categoria especial para dar motivação à prova. Fui o quinto a sair da água e terminei a prova entre os dez primeiros”, conta.

Hoje, Pauê é atleta profissional e divide seu tempo entre treinos e faculdade. Participa de várias competições internacionais de sua categoria e ainda arranja tempo para dar palestras sobre superação de limites através do esporte, além de colaborar com as pesquisas para o aperfeiçoamento de próteses. De quebra, acabou de fechar uma parceria com o site Waves, onde vai ter espaço para falar de assuntos relacionados ao esporte adaptado. “Também tenho vontade de lançar um livro, quem sabe daqui a alguns anos”, planeja o novo militante.

Agradecimentos: Pauê e Revista Trip


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