O planeta virou uma grande escola a céu aberto graças à ousadia de um mineiro que percorreu o globo terrestre de bicicleta e fez questão de compartilhar essa aventura com estudantes de todo o mundo.
Em 2001, o arquiteto mineiro Argus Caruso Saturnino subiu numa bicicleta disposto a conhecer o mundo. Não, não se trata de uma força de expressão. Ele, de fato, deu uma volta completa no globo, e não teve pressa de concluir a empreitada, já que o plano era saborear cada pedalada, cada aceno, cada lufada de vento. "Desde criança, sonhava em contornar o planeta. Quem me incentivou a não mais postergar a viagem foi Vilfredo Schürmann, chefe da família de velejadores catarinenses que realizou a mesma jornada", conta o explorador.
O projeto, denominado Pedalando e Educando e registrado no livro Caminhos (ed. SESCSP), tinha tudo para ser mais um entre tantos outros projetos motivados pela ânsia de superação e pelo desejo de colecionar belas fotos e lembranças, não fosse o intuito de compartilhar a experiência com estudantes do mundo inteiro.
Tudo começou em 2000, quando o arquiteto participou como tripulante da regata em comemoração dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. Depois de passar quatro meses e meio entre céu e mar, refazendo o trajeto percorrido no passado por Pedro Álvares Cabral e idealizando a próxima peripécia, ele foi convidado por diversas escolas a esmiuçar sua estada em alto-mar. "Percebia que os alunos ficavam muito interessados nos relatos. Foi aí que tive a ideia de criar um site para que pudessem acompanhar à distância minha futura jornada ao redor do mundo."
A aventura durou três anos e meio, entre 2001 e 2005, e só foi realizada graças ao patrocínio de empresas privadas. Para fugir do frio, o ciclista amador se manteve próximo à linha do Equador. Ele também privilegiou tradicionais rotas históricas, como a dos incas, da Companhia das Índias Orientais, da seda, das caravanas do Império Romano, da expansão do islamismo, dos mercadores africanos e asiáticos, além da Estrada Real, que liga Minas Gerais ao litoral brasileiro. O giro abarcou 28 países e mais de 35 mil quilômetros.
Pesquisa de Campo
O endereço eletrônico de Argus Caruso , alimentado com relatórios em português e inglês, foi concebido para ser uma ferramenta de apoio a professores e uma isca para alunos sedentos de informações e histórias com gosto de aventura. Mas seus escritos não se limitaram aos registros típicos dos diários de viagem. Segundo o autor, detalhes banais não poderiam ocupar o precioso espaço dedicado à geografia, história, cultura, religião, aos costumes e conflitos geopolíticos. "Depois, fui saber que estava praticando a geografia clássica. Um tipo de conhecimento produzido no local de origem, por meio da descrição não só do espaço físico e da história, mas também das vivências ali protagonizadas", ele explica.
A fim de zelar pela precisão e pelo fundamento de suas narrativas, Argus se abastecia visitando museus e bibliotecas, conversando com professores e guias, e, principalmente, com gente da terra. Os esforços da averiguação tinham uma motivação quase panfletária. "O ensino de história no Brasil é muito desproporcional. Aprendemos a fundo a saga das nações europeias, mas sabemos muito pouco sobre a trajetória dos povos do sudeste asiático, por exemplo", ele critica e aponta a causa do problema: "Não tivemos uma revolução didática desde nossa independência no século 19. Permanecemos colonizados do ponto de vista cultural e educacional".
Ele mesmo esbarrou nessa lacuna ao investigar in loco informações sobre a Guerra do Vietnã. "Em minhas andanças, pude constatar que esse conflito afetou não só o país que serviu de palco para o confronto, mas todo o sudeste asiático. Até hoje, existem minas e bombas que eventualmente são ativadas, ferindo a população.
Fonte: Bons Fluidos